Num ápice deixo-me estendida no chão, sem quaisquer acuidades,
levando a melhor a imperceptibilidade da existência de algum senso em mim.
Fosse só de mim este nexo, é de todos, de tudo, até das migalhas - tão exíguas
como tão fundamentais - que se fundem no meu umbigo. Assim como me estatelei, fugazmente
deixo de perceber, a visão aguça e borra-se, como se me encontrasse submersa numa
solução viscosa. Retenho os toques de meampara os toques e me acaricia as
omoplatas. Deixo-me ficar sem noção espaço temporal, quase que em transe –
começava a ser aprazível…
domingo, abril 07, 2013
Roubo
A incessante remistura de sonoridades que me acompanha
revolve a uma constante míngua de recriação, não de afectos, mas de formas e
cores. Mais que perfeito torna-se presente, e fico escarvando os raios
luminosos, como se de indulgência se tratasse.
domingo, março 31, 2013
20
As costelas entropecem as crostas das costas, tudo interligado
como se de uma rede eu me tratasse. Tudo arquitecturalmente conjuntado,
aprimorado ao milímetro. Um e outro erros estruturais mas não faltosos - o
terreno a ceder. Quis não deixar de compor linhas tortas, só deixar de
aparecer, os devaneios permaneceram e evoluíram como arrozais, sucumbindo da
água enodoada.
Nem por isso um aspecto mais cristalino, porventura progredido,
esclareça-se que tão pouco maturo como há alguns anos atrás. Os pêlos
acompanham a malvadez, as unhas chegam a encaracolar de tanto desprezo prendido
com a escoliose. A bacia tão desproporcionada enche a falta de cominação,
enquanto me embala, tal qual fotómetro a queimar a cara. Enaltece-me o pêlo
facial, decomposto na tua teimosia, tão pobre como o que ousas expungir sem possuíres.
Revolvo a mim, sem indulgência nem discernimento. Sem
demora, vou pastelando enquanto me envolvo com o ruído envolvente. A solidão
tornou-se uma dádiva compartilhada.
terça-feira, outubro 02, 2012
1001
Sem reflexo recorrente ou espontâneo, adormecendo nas
pétalas ocres, libertando raros movimentos fulcrais. Pesam-me os ossos nas
dores, os músculos na rigidez, enquanto me deixo empatar. Sabia que lograva,
não sabia que endrominava, não sei o que penso. Aspirava sossego, mas não se derroga
a pena com simples indulgência…
terça-feira, setembro 18, 2012
Fugazmente
Meia-noite e mais maus e pobres semi-segundos, sem denotar a
delicadeza de cada oira que escoa por entre a electricidade notavelmente estática,
de tão forte sua luzência, e o muro desfolhado.
De seu talhar tão insolente e, a meios que invariavelmente escassa, apesar de ser tanta a sua magnanimidade.
Não só no arrependimento da idade – qualquer um crava o pé no aro – mas do que que não mais escorre pela pele, sem sequer ser inédito, mais parcamente e pouco mais e (incansavelmente) mais inevitável, sem me deixar espaço para recobros.
E, de forma ruim, retalio a este ser que me endoidece que me avoca opiniões e astenias, começando por me rojar da tijoleira para a cal, elevando a ansiedade ao expoente do alvoroço.
Sendo tal o badanal, desenfeito-me a compostura e recomeço a engendrar (uma e bastantes vezes), tricotando mais um resquício do que me simboliza, simbolizando assim, o pico da persistência.
De seu talhar tão insolente e, a meios que invariavelmente escassa, apesar de ser tanta a sua magnanimidade.
Não só no arrependimento da idade – qualquer um crava o pé no aro – mas do que que não mais escorre pela pele, sem sequer ser inédito, mais parcamente e pouco mais e (incansavelmente) mais inevitável, sem me deixar espaço para recobros.
E, de forma ruim, retalio a este ser que me endoidece que me avoca opiniões e astenias, começando por me rojar da tijoleira para a cal, elevando a ansiedade ao expoente do alvoroço.
Sendo tal o badanal, desenfeito-me a compostura e recomeço a engendrar (uma e bastantes vezes), tricotando mais um resquício do que me simboliza, simbolizando assim, o pico da persistência.
sábado, maio 05, 2012
_|_
Queria tanto não me afogar em lençóis de cinzas, mas, como tantas outras vezes, não mo foi subordinado.
Piedosa a minha vontade de tanto apadrinhar, tantas as migalhas e lascas ósseas que temei em jungir, tanto quanto a minha cegueira plástica e fervorosa.
Não nego, nem nunca o fiz, o quanto apreciei tudo isto, tanta foi a sanidade disposta a tal agouro que a cisma porfiou em esquecer, no horizonte já só resta a silhueta ao longe.
Nada.
Nada mais aflui ou aporta.
De tanto parecer, foram tão poucos os outros, só sobre ele, o melindrado.
De tanto o parecer, apercebi-me que nem ele – o ego – queria ser.
…Como eu me fui desarranjar no meio de tanta compostura...
Piedosa a minha vontade de tanto apadrinhar, tantas as migalhas e lascas ósseas que temei em jungir, tanto quanto a minha cegueira plástica e fervorosa.
Não nego, nem nunca o fiz, o quanto apreciei tudo isto, tanta foi a sanidade disposta a tal agouro que a cisma porfiou em esquecer, no horizonte já só resta a silhueta ao longe.
Nada.
Nada mais aflui ou aporta.
De tanto parecer, foram tão poucos os outros, só sobre ele, o melindrado.
De tanto o parecer, apercebi-me que nem ele – o ego – queria ser.
…Como eu me fui desarranjar no meio de tanta compostura...
domingo, janeiro 29, 2012
Jovialidades
A felicidade não é uma constante. De facto, dissipa-se mais com o passar dos anos, demarcando o seu limiar e o fardo da memória. À parte disso, existem também as fugas francas de quem perde e atura, numa ânsia de não querer sentir nunca mais.
De qualquer das maneiras, todos os dias me ergo e espreguiço uma e outra vez, sem deixar de levitar sobre o cheiro das castanhas das brisas outonais, as vozes escoantes do café como se de fantasmas se tratassem, os sorrisos amigos, os toques dos corpos, tão recentes mas tão arcaicos, os acordes da tal música no ouvido, o pulsar das veias, a boémia, e tantos outros nacos de mim.
Por vezes sabem a pouco, estas singelas fortunas alegres que me estão tecidas aos dedos, pelas quais me desfaço em ténues nuvens de fumo colorido. Mas tudo isso, num pequeno atrapalho, se vai sem que eu me possa sequer enxergar. E, então, volto a ser um espaço vazio, sem o abraço de sentimentos arrojados que me ampara a confiança. São tantos os instantes que me tornam um ser, sem conta certa nem delicadeza, que se torna tão espontâneo o esquecimento e a minha perca por sentidos puramente ambíguos, ao que me deixo ansiar por outra possibilidade escassa de poder reunir todos estes fragmentos e voltar a ser uma pessoa satisfeita, repetidamente.
De qualquer das maneiras, todos os dias me ergo e espreguiço uma e outra vez, sem deixar de levitar sobre o cheiro das castanhas das brisas outonais, as vozes escoantes do café como se de fantasmas se tratassem, os sorrisos amigos, os toques dos corpos, tão recentes mas tão arcaicos, os acordes da tal música no ouvido, o pulsar das veias, a boémia, e tantos outros nacos de mim.
Por vezes sabem a pouco, estas singelas fortunas alegres que me estão tecidas aos dedos, pelas quais me desfaço em ténues nuvens de fumo colorido. Mas tudo isso, num pequeno atrapalho, se vai sem que eu me possa sequer enxergar. E, então, volto a ser um espaço vazio, sem o abraço de sentimentos arrojados que me ampara a confiança. São tantos os instantes que me tornam um ser, sem conta certa nem delicadeza, que se torna tão espontâneo o esquecimento e a minha perca por sentidos puramente ambíguos, ao que me deixo ansiar por outra possibilidade escassa de poder reunir todos estes fragmentos e voltar a ser uma pessoa satisfeita, repetidamente.
quinta-feira, dezembro 01, 2011
Foz
Sou arrastada pelas costelas, sinto o fechar das minhas entranhas e, persistentemente, tento prosseguir o caminho do sono, sem sucesso. Agarra-me pelas costelas e cospe-me lanços de dor, uivando a minha solidão. Não o vislumbro, sinto calafrios nas pálpebras, recolho os membros e consolo-me com a glória e ignorância de dias anteriores. Espero até desaguar nas manhãs douradas, levando-me no embalo das areias e rochas porosas. Multiplico-me pelas fissuras e orifícios, estilhaço a minha existência pelos infortúnios do desgaste natural e desfruto a minha âncora.
Por vezes ainda me atiro das escadas, mas nunca o teu suplício fora meu.
Por vezes ainda me atiro das escadas, mas nunca o teu suplício fora meu.
quinta-feira, julho 28, 2011
Afogamento
Os vários cataclismos que me protegem tornam-se difusos no espaço longínquo em que agora me encontro. Deixo o corpo esmorecer à falta de nutrientes e emagrecer à luz da noite. O descanso aterra nas minhas coxas e deixa ficar a incompreensão e apodrecer a inutilidade. Revogo a renovação dos meus poros enquanto retorno aos mesmos hábitos, enquanto os sinto humedecer. Deixo agora que a água penetre todos os escombros que me cobrem, de tanta a grandiosidade só se salienta o ridículo. Deixo-a pesar, e ouso pender-me sobre a profundidade que me sustém, até me afundar em folhas de ouro e algas, num entorpecimento tal que se me começam a desmaterializar os membros em acanto e hortelã, numa fúria tal que todo os meu corpo se resume, em ásperos e fugidios momentos, numa breve infusão de frescura e nada em particular.
quarta-feira, junho 22, 2011
Simples
Circulo em círculos meticulosamente magistrados a calçada que me abraça e atende, com jubilosos risos e ledos toque de pó-de-arroz. Não devia, depois do meu esforço inócuo contra a sua fútil inércia e de a aterrorizar. Doem-me os pulsos, e não me cessa mais do que o ardor da vergonha, enquanto manuseio o arco. Dou por mim absorta nos desenhos das nuvens da resina enquanto me fundo com as vibrações envolventes. Dispo-me de peles alheias e afogo-me nas células mortas que me circundam como uma mortalha. Deixa. Mais uns dias e volto a ser uma outra mancha de humidade na tinta esfacelada. De tantas as barreiras, a morte, o céu, o mar salgado, pouco me sobrou da infância que já secou. Deixa estar, eu cá me desembaraço.
E eu? Ora, tu fica-te pelo sabor a açúcar cauterizado que me envolve o entardecer.
E eu? Ora, tu fica-te pelo sabor a açúcar cauterizado que me envolve o entardecer.
segunda-feira, junho 06, 2011
Dois meses
É translúcido o tecido escuro que me envolve, quase como se de vinho se tratasse, como se eu alguma vez tivesse essa sorte. Deixo-me mover em longas linhas rectas, de quem só se aproveitam os torcicolos deixados, juntamente com a fadiga. A lancinante dor do entorpecimento dos músculos nada mais me mostra que a dureza da impaciência. Aí deixo-me entorpecer pela aguarela que me inunda o corpo e pelo esforço de não me fechar no meu casulo de vidro. Haja quem houver, continuo sem perceber o fascínio da necessidade de ensaiar a desordem, apesar de muito o reflectir - como se uma alcateia se virasse contra o vento e se espavorisse contra o vidro, o meu vidro, e numa explosão de sensações e entranhas arremessasse a plenitude da morte, encanto (quase) só meu.
Acabo o raciocínio e deixo-me emergir das cores pálidas e pastel com quem me fundi, para me deixar asfixiar nos ventos e aí desaparecer, numa pífia alegria, na velhice dos solos que se elevam numa grande e negra névoa só para me elevar até ao sol, e derreter numa só amálgama, elástica e apodrecida - como se em compota me transformasse – e lentamente poisar na relva, para ai permanecer mais uns milhares de anos.
- Para mim é simples, a indiferença.
Acabo o raciocínio e deixo-me emergir das cores pálidas e pastel com quem me fundi, para me deixar asfixiar nos ventos e aí desaparecer, numa pífia alegria, na velhice dos solos que se elevam numa grande e negra névoa só para me elevar até ao sol, e derreter numa só amálgama, elástica e apodrecida - como se em compota me transformasse – e lentamente poisar na relva, para ai permanecer mais uns milhares de anos.
- Para mim é simples, a indiferença.
sexta-feira, abril 29, 2011
Perseverança
Não sou dada a emendar asneiras, apenas a confecciona-las. Sem deixar de me sentir acompanhada acabo por perder a ignorância do que já não sou e vejo-me a dar cegas facadas no chão. É tal a cegueira que só resisto ao núcleo brando que se forma por detrás do vapor. Permanece rouco o grito que anseio por comunicar, sempre que relembro, mais morta que consciente, o perjúrio que este já desenhou nos soalhos. Talvez assim se apaguem os risos alvoroçados e o rebuliço que acabo por abafar. E tudo na ânsia de não me saber compreender, nem mesmo exprimir. Benzo de ingénua a forma como releio os pequenos jogos de luz, todos os insignificantes detalhes, à medida que te passeias pela sala, rebuscando e analisando cada metro quadrado. A esfrega dos poros e o arremesso de cartão, num movimento cíclico, quase autómato, afiguram-se as poucas e inócuas construções frásicas que exalo. A maresia rebenta a meu passo, permanecendo, eu, estática. Os ruídos ensurdecedores deixam-me pequenos golpes, singelos e inofensivos, relembrando o avesso em que penetram as contradições, tal como as premonições.
Na minha maneira mais infantil começo a rimar, sem deixar de afrouxar os nervos faciais, na rotina enfadonha, vocês sabem, aquela que quebra a perseverança. Estendo-me na madeira que me repulsa, e absorvo a humidade, à medida que rezo a Ares a chegada do fim pela bruma matinal. E nisto peço-te: faz-me parar.
Na minha maneira mais infantil começo a rimar, sem deixar de afrouxar os nervos faciais, na rotina enfadonha, vocês sabem, aquela que quebra a perseverança. Estendo-me na madeira que me repulsa, e absorvo a humidade, à medida que rezo a Ares a chegada do fim pela bruma matinal. E nisto peço-te: faz-me parar.
terça-feira, março 29, 2011
Raciocínio
Não é pela complicação que o faço, sem desmentir já o ter pensado em tempos distantes. E quase como um desabafo oco, num grito surdo que todos ousam ouvir. Assim, deixo-me escorregar pelo têxtil que cobre o sofá e permaneço a observar os seus subtis reflexos. Acredito que funciona num anexo ao meu ser. Talvez seja o descanso que congestiona o seu funcionamento. Relembro sons que pensava um dia ouvir. E os poucos pensamentos que não ecoavam dentro dos ossos agora deixam-se ficar pela medula. Nunca me cheguei imaginar até aqui, está calor e sinto-me febril, mas também não foi graças ao juízo que cá apareci. O nervosismo já manchou a tijoleira e deixa-me lembrar a razão que tento encobrir. Não sei bem como isto se desenrola assim, mas sei que não parte apenas de um único movimento, dum conjunto deles, de palavras e onomatopeias que retenho, e, principalmente, daquilo que imagino, seja em continuidade a momentos vividos ou simplesmente novas existências por parte de pessoas a quem já cedi a fuga. Andam por aí, o mesmo local onde me encontro agora. Onde me sento a observar as folhas caramelizadas que se enrolam num rodopio em volta do meu torso. O esforço é mais do que suficiente, mas peco pelas bolhas que me cobrem os pés. Nem sei se escrever me vale de algo, embora me pareça apropriado a quem não sabe onde assentar.
quinta-feira, março 17, 2011
Vertigem
Sinto uma necessidade contínua de estragar o que me favorece, de uma forma inconsciente e quase ingénua. Quase. O abraço que por vezes ofereço às minhas estirpes não me desacomoda tanto como o osso que desloco ao exercitar, uma e outra vez, aquilo que já desisti de fazer. Assim como já desembaracei os pensamentos de algo mais meloso, digo, pastoso, que penoso. Esse peso incide sobre a minha percepção ao meu exterior, juntamente com o sôfrego e a constante necessidade de dor. Enquanto flutuo sobre estes profundos golpes que reflicto noutros não ameaço a minha resistência, quiçá o contrário. Continuo a ignorar o entendimento de que não o devo fazer, enquanto os pêlos, espigados e baços, e pedaços da podre madeira, que deixo cair, provam o contrário. O optimismo não me ocupa saber e sinto-o a escorrer-me pelos poros enquanto levito sobre a lama. E, atordoada, penso na raiva que tenho a quem o possuí, não só pela mentira que abarcam mas pela robustez que demonstram. O pouco de mim que permanece frívolo e intacto prepara-se para o fim. Quando na verdade eu só queria poder ver outros lados da mesma moeda, só me sobra o pesar da realidade mais pura, deturpada pelo estigmatismo que me acompanha.
segunda-feira, março 07, 2011
Clímax
Sinto-me a desfalecer, quase nas nuvens. O pesar dos poucos segundos sem pressa de recuperar o fôlego faz de mim um mero improviso espalhado pelo ar até ao embate no penúltimo degrau do terceiro vão de escadas. O ar quente subiu-me à tiróide num estrondo tal que deixei de matutar. Tudo porque me deixei regressar e enegrecer o teu presente à mesa-de-cabeceira, já sem pernas. Sinto o sangue quente de quem me agarra os braços e torneia as mãos enquanto a corrente de ar me massaja suavemente as pálpebras. Os aros que me envolvem os dedos descolavam da penugem que te cobre a cara enquanto libertavam pedaços de cútis, numa lentidão e fogosidade quase surreais. As poucas diferenças que nos tocavam espalharam-se pelo espartilho que vestes. Sinto que são poucas as memórias que restam do fim.
Não é tanto o arrependimento como a vergonha – na verdade gostaste quando a união nos estilhaçou, conjuntamente, o maxilar e a mão -, mas sim a sinceridade de admitir que não fora somente a embriaguez - ahn?. Foi também a vontade de reciprocar o quanto te honro.
Agora fico eu à espera da culpa e o teu cadáver à procura de cova onde desaparecer.
Não é tanto o arrependimento como a vergonha – na verdade gostaste quando a união nos estilhaçou, conjuntamente, o maxilar e a mão -, mas sim a sinceridade de admitir que não fora somente a embriaguez - ahn?. Foi também a vontade de reciprocar o quanto te honro.
Agora fico eu à espera da culpa e o teu cadáver à procura de cova onde desaparecer.
terça-feira, fevereiro 22, 2011
Lusitânia
Deixa remoída a sua raiz para ser engolida pela penumbra, ao desfalque dos seus só tem o plágio como resposta. Na volta sai sofrida, na mão já leva anca partida, sem deixar escapar um esgar dos lábios maneirinhos. Os choros catárticos pregoam-se-lhe nas entranhas da luz fria e da calçada escangalhada. A voz surge entalada por entre os muros tingidos de raiva, que no entanto se mantêm brancos e gelados numa recriação quase autómata. Os esguichos agudos circulam pelos fumos negros que se arrastam atrás de quem os expele. Estes, que se infiltram pelo seu subconsciente de forma simples e abrupta, teimam em levar as esquinas e contornar os cruzamentos, focando-se no movimento circular que é o pensar. E ao pensar deixam desabafar as correntes que se elevam, contraditórias, e desmascaram o enfadonho que é o seu ser.
domingo, fevereiro 13, 2011
<>
Escapou-se-me o pensamento algures entre o real e o entendimento fingido mútuo, à medida que desintegro as fibras em duas míseras folhas de medidas estandardizadas. As poucas vivências que me interpelam a costelas sentem o meu vazio, meio cheio de culpa. Não é falta de vontade, é o medo de me aleijar. Não me sei ditar (pelo amor não é de certeza, pela habilidade muito menos). Talvez por isso é que mordo os lençóis à medida que me fundo com o mesmo pensamento que me remata os dias, a batalha furiosa para mudar o que já foi escrito e dito, para fazer valer a insignificância de quem escreve assim, de forma atabalhoada, sem nexo ligado à ideia anterior, basicamente espalho frases pela composição e deixo estufar em lume brando. O cheiro a queimado há muito que se deixou ficar a remoer as minhas catarses múltiplas, de resultados pouco fiáveis. Continuo a cantar a vós, miseráveis inexistentes, e porque não vos canto por acaso. Fazem de mim ser ofuscado ao troçarem da insegurança que me rodeia, coisa tão fácil. A mesma facilidade com que repito a mesma força matriz que me traz tonturas e sobejos que retratam uma imensidão de dores inexistentes. Admito que continuo a ignorar as represálias, tão húmidas e inférteis como as folhas que agora rabisco.
O descalabro a que isto chegou é inexplicável quanto baste mas, mesmo assim, não me considero a mesma, apenas no mesmo sítio. Um local aconchegado.
O descalabro a que isto chegou é inexplicável quanto baste mas, mesmo assim, não me considero a mesma, apenas no mesmo sítio. Um local aconchegado.
quarta-feira, janeiro 19, 2011
Lo-fi
Acabo de sofrer o penoso relance da tua revolta. Não fosse ela planície mais vazia, talvez eu estivesse por aí. As circunstâncias não foram as melhores, nem mesmo as palavras. Os poucos soluços entrelaçaram a possibilidade de tu seres um composto nulo, vários, digo imensos, mas por agora atiro o meu nome. That’s ok, a tenra frieza ainda não se tinha desenvolvido, a inocência estava a nu e o meu pé estático. Tacteavam-se as coxas inchadas, lambiam-se as pálpebras do escárnio e da falta de sono. Não meço as semanas pela qualidade, mas pelas inevitabilidades. Acontece que a cólera é mais do que a indiscrição.
sábado, janeiro 15, 2011
Peso
Talvez, sendo esta apenas uma das possibilidades, os ecos dos teus gritos surdos afagassem os devaneios de te contactar uma vez mais. Não percebo a miserável vergonha, no meio do tanto que já fomos, um colectivo impetuoso. Os teus vultos de passagem pelos bancos manchados, ou a areia que já beijas-te, revolvem a minha vontade de te sacrificar. Porque não sei cantar a exactidão, mas que era merecida para ambos, isso sim. O sabor exulcerado dos teus caracóis impregna o miserável sucesso que me rodeia. E este espaço vazio que antes se ocupou da tua voz deixa-me escoriações nas costas, vergadas de subtileza, amassada em teu bel-prazer. E dizer-te, com a mesma ignorância com que me deixas-te nas tuas frases em que pensava “se to contasse não irias acreditar, mas, de qualquer forma, permanecer irrequieto não é assim.”. Que serias, uma vez mais, aquilo que nunca iria imaginar, que não me imagino a mim. O trabalho de umas semanas e a amnésia refrescam-se de ti, e das novas formas de cuspir no teu (pouco) peso. Já te soube entender, mas não me quero aqui. Nunca quis.
segunda-feira, dezembro 06, 2010
Kaiv
Não me gabo das influências que remisturo e dirijo no canto inferior esquerdo da consciência, não fosse ela performer das suas desavenças, toques ou suspiros. Suas que se transmutam como minhas, roubadas às ardósias que me embelezam o crânio. Só de beleza eu, nunca ela que aí vive, confinada às paredes côncavas e brutamente ocas. O encolhimento de todas as cabeças, que um dia já temeu, tece-lhe o espírito de macacos que lhe assombram as manhãs (que, fosse como fosse, não distinguiria sem o clarão das minhas pálpebras astutas). Sem sentir o tempo ou a humidade, rebola-se pelas paredes numa dança embalada em teias de seda cobertas de canela. A fuga à realidade não será caminho, apenas a sua experiência puramente manufacturada a deixa a enferrujar no sábio desalento de que nunca irá sentir. E basta-lhe essa pouca imaginação das suas composições, deixadas ao relento pela repetição. Basta-lhe o facto de um dia as culpas recaírem sobre si e todo o vazio se tornar culpa.
Basta-lhe a percepção e o seu ódio por mim.
Basta-lhe a percepção e o seu ódio por mim.
domingo, dezembro 05, 2010
Silêncios
Talvez porque, por vezes, me perco na escolha de palavras ainda inexistentes e deixo escorrer o silêncio pelas paredes, mas não é de uma forma incitada que o faço. O silêncio cobre-se de inveja, e tropeça no cómodo prazer de troca de olhares. Não fosse já embaraçoso, os esgares dos lábios não me acompanham as intenções, podendo dizer que sou contrafeita pelo meu exterior. E todo o meu lado esquerdo, imperfeito e irregular, se entristece. Não pela surdez dos agudos, a costela que espreita ou o olho mais miópico, talvez pela forma atabalhoada como se acanham. E deixo-me estar, sem um pio, pela vergonha da figura que tomei ao longo das quadras. Porque esta não é a última vez, nem mesmo as últimas frases.
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